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ENEM 2010 e os Vestibulares: a Solução Possível

Enganam-se os que pensam que as trapalhadas do ENEM 2010 resumiram-se apenas às trocas de cabeçalhos, aos erros de encadernação em um lote de provas da cor amarela e à suspeita do vazamento do tema da redação, no segundo dia de provas.

Esses foram apenas os principais erros apontados os quais, por si só, já seriam motivos suficientes para cancelar-se o exame. E nem (sem trocadilhos) a justificativa de que o cancelamento iria atrasar os processos seletivos das universidades que optaram por adotar as notas do ENEM e, mais ainda, que isto causaria um prejuízo de 180 milhões ao Governo, se tivesse de refazer todo o exame, são motivos legítimos e suficientes para mantê-lo válido. Se o Governo não quer pagar pelos seus erros, a sua incompetência e o seu amadorismo, não é justo transferir essa responsabilidade para os estudantes.

Sabe-se que o ocorrido até aqui poderá desencadear uma batalha jurídica, sem data para solução, porque é certo que o MPF irá recorrer da decisão do TRF que derrubou a liminar que cancelava o ENEM em todo o país. Paralelamente, as datas dos vestibulares se aproximam e as universidades precisam definir, já, os seus critérios de seleção e ter os resultados dos seus vestibulares até janeiro. Isso será possível? Certamente que não.

As outras trapalhadas, sem destaque na mídia:

O que a mídia não esclarece bem é que além dos problemas apontados existiram outros; e outros se sucederão como conseqüência da realização de um novo exame apenas para os que se sentirem prejudicados, como, por exemplo:
  • Falta de treinamento e total despreparo dos fiscais de prova, que não sabiam como orientar os candidatos e davam orientações diferentes em cada sala, em cada cidade;
  • Geração de dúvidas, intranqülidade e indução de candidatos ao erro, com perdas de tempo de até meia hora, que não foram compensadas no final, apesar da promessa de que seriam;
  • Erros de endereço nos cartões de inscrição, indicando salas diferentes das que constavam da real distribuição dos locais e salas;
  • Falhas na designação dos locais de prova (adotou-se a ordem alfabética de nome e não o código postal da residência dos candidatos), o que fez com que alguns, não obstante terem locais a menos e 300m de sua residência, fossem designados para fazer provas a mais de 30 km de distância, chegando atrasados ou ficando presos no trânsito;
  • Erros na impressão dos dados do candidato (datas de nascimento, por exemplo);
  • Questões de natureza subjetiva que admitiam mais de uma resposta, corretas, segundo professores de cursinhos;
  • Questões que não admitiam qualquer resposta, sem que houvesse a opção NRA (nenhuma das respostas anteriores);
  • Proibição do uso de relógio e de que os fiscais de prova desenhassem os gráficos informando o tempo decorrido e o tempo restante de prova, o que dificultou o controle e o planejamento do tempo. Qual a razão para não informar o tempo decorrido? Em que critério de segurança isso se baseou?
  • Excetuando a redação, ausência quase total de questões que avaliassem os conhecimentos de ortografia e gramática dos candidatos, possiblitando até que estudantes com pouquíssimos conhecimentos da língua escrita culta pudessem ser aprovados (detectamos apenas duas questões, assim mesmo, de natureza meramente interpretativa). Conclusão: não se precisa mais saber escrever, bastando saber ler e interpretar(???);
  • Número insignificante de questões de língua estrangeira (apenas 5), num total de 180, desestimulando os candidatos a dedicarem maior tempo ao estudo de línguas. Por que não, pelo menos 10 questões?

Antes de emitirmos nossas opiniões, examinamos as provas, analisamos seus conteúdos, resolvemos questões, cronometramos tempo, visitamos mais de 50 sites que comentaram o assunto, ouvimos opiniões de professores e declarações de alunos e comparamos várias correções de provas, verificando que até entre professores de cursos especializados não havia consenso sobre as exatas respostas de determinadas questões.

Ora, se isso não é motivo suficiente para cancelar-se o exame o que mais será? E sobre os candidatos que entrarem com recurso, a Justiça não terá de se pronunciar? Será que darão ganho de causa ao Governo, só porque este não pode ter um prejuízo de 180 mlhões de reais e porque irá atrasar o processo seletivo das universidades? E se isso ocorrer, como ficará a credibilidade do Poder Judiciário que, aliás, já anda em baixa?

Este é o quadro caótico que se apresenta, quando se colocam amadores, completamente despreparados, para gerir questões de tão grande relevância. Mas o desfecho final do caso, na hipótese de ser favorável ao Governo, pode revelar um outro problema ainda mais grave: a subserviência do Poder Judiciário ao Poder Executivo. Será?

A Posição do "Ministro da Educação"

Para Fernando Haddad, os erros ocorridos são pontuais e percentualmente aceitáveis e conseguirão ser sanados com a aplicação de uma segunda prova, apenas para os candidatos que foram prejudicados. Mas como identificar com precisão esses candidatos? São os organizadores quem vão dizer quais são esses candidatos? Se não tiveram competência para fazer o mais simples, vão ter competência para isso? Ao que parece, se tentarem consertar desse jeito irão é gerarar mais polêmicas e complicar ainda mais todo o processo, porque irão, com toda a certeza, ferir os princípios mais comezinos do Direito, como a isonomia, a licitude, a igualdade de condições para todos os candidatos. Será que o Senhor ministro não sabe disso? Não possui assesores jurídicos competentes para orientá-lo?

Receia-se que não, que os seus assesores sejam daqueles que trabalham para dizer amém ao que o ministro quer, do contrário, já teriam-no orientado a desistir dessa idéia. Nem a tão falada (por ele) TRI (Teoria da Resposta do Item) poderá restabelecer a justiça do certame. Agora, só um novo exame geral, para todos, evitaria a enxurrada de processos que viriam.
Um ministro que insiste em destacar apenas um erro de "cabeçário" (sic) ao invés de erros nos cabeçalhos, deve pensar assim: "Se berçario é uma sala cheia de berços; se ossuário é uma coleção ou um depósito de ossos; se mostruário é uma coleção de amostras... então "cabeçário" deve ser uma coleção de cabeças, uma sala cheia de cabeças (dos estudantes)". Será que o senhor ministro passaria no exame do ENEM, apesar de não ter sido difícil? Ou teria apenas um aproveitamento Tiririca?

Os pontos positivos e o que se deve corrigir nos próximos exames

Já havíamos fechado este texto quando verificamos que cometemos uma falha: não destacamos os pontos positivos do ENEM e eles existiram, embora ofuscados pelos negativos, que foram muito maiores. Então, para se fazer justiça, vamos destacá-los:
    • Primeiramente, a idéia central de substituir-se os vestibulares tradicionais por um exame único, que avalia todos os candidatos em igualdade de condições (desde que essa "igualdade" se verifique, é óbvio);
    • A quase eliminação do chute e da decoreba, priorizando o raciocínio lógico e a aplicação do que se aprendeu a situações reais do dia-a-dia. Isso possibilita ao candidato ter uma visão dos porquês e das finalidades práticas daquilo que estudou, sabendo como e em que situações poderia usar seus conhecimentos. Nos vestibulares tradicionais os candidatos apenas decoram assuntos e fórmulas, às vezes até sem saber para que serve aquilo que aprenderam. Nota 10 PARA O ENEM nesse quesito.
    • Valorização da cultura geral e do conhecimento de atualidades, visando aferir se o candidato está inserido e adaptado ao contexto social do mundo globalizado em que vive. Aqui, só não leva nota 10 porque não cobrou suficientemente o conhecimento de língua estrangeira.
Preservando-se esses aspectos positivos e corrigindo-se as falhas já detectadas, o ENEM talvez possa cumprir, de fato, os objetivos a que se propõe.

A Solução Possível

Diante de tudo o que foi exposto, parece-nos que a única solução sensata possível seria a seguinte:
1) Permitir que as universidades (pelo menos para o vestibular para ingresso no 1º semestre de 2011) realizem seus próprios vestibulares, desconsiderando por completo qualquer nota do ENEM, ainda que isso importe em retardar o início do ano letivo, que seria, depois, compensado com aulas extras;
2) Realizar um novo ENEM, para todos os candidatos, cujas notas só seriam válidas para os vestibulares de meio de ano, em 2011, mudando-se alguns citérios na elaboraçao das questões (como, por exemplo, exigir mais questões de aferição de conhecimentos de ortografia e gramática, dobrar o número de questões de língua estrangeira e evitar o uso de questões de enunciados longos e de interpretação muito subjetivas, que poderiam levar a mais de uma resposta válida ou a nenhuma).

Eis aí o que nos parece ser mais sensato, justo e racional. Quem discorda ou tem alguma ideia melhor, que apresente seus pontos-de-vista e chame outros para o debate.
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