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Mercado da Fé: Cruzeiro Marítimo Gospel do Edir Macedo Rivaliza com o dos Católicos

Cruzeiro Gospel da IURD
(Transcrito do site coirmão "Debata, Desvende e Divulgue", do mesmo autor)

Eu juro que era minha intenção escrever um artigo técnico, abordando os aspectos econômico, social e filosófico, relacionados aos cruzeiros marítimos religiosos; eu juro ter prometido a mim mesmo que iria evitar o uso da expressão "mercado da fé" nessa nova matéria, por saber que ela desagrada aos fiéis (principalmente os praticantes), embora eu a considere absolutamente verdadeira; eu juro que prometi a mim mesmo evitar qualquer toque de ironia ou humor nos meus textos, para que eles pudessem ser considerados com a seriedade que merecem e para que se mantivessem dentro da linha editorial deste blog; eu juro que os meus objetivos eram chamar a atenção para um novo segmento de mercado fenômeno polarizador dentro do meio religioso, que aparece logo depois dos padres cantores, cantores, cantoras e bandas gospel; eu juro que havia me proposto a escrever um artigo que não colocasse os cristãos de qualquer denominação como o público-alvo de um mercado consumidor eivado de propagandas enganosas; eu juro que
tentei escrever de tal forma que eles não se sentissem achincalhados, ludibriados, lesados e vítimas da máfia religiosa; eu juro que só queria que eles acordassem e vissem em que estão metidos…
Mas, sinceramente, não dá, não dá, não dá! Primeiramente, porque não sou escritor profissional, não sou publicitário e não domino as técnicas de convencimento de massas; segundo porque acho mesmo a tarefa difícil, até para escritores do porte de um José Saramago ou Machado de Assis, por exemplo, para citar só dois que, por sinal, também eram ateus. Como falar de um tema desses sem desagradar àqueles que já se encontram dentro ou nos umbrais do fanatismo religioso?

Por tudo isso e mais o meu passado de críticas aos malefícios da religião que leva ao obscurantismo, DESJURO. Tenho procurado escrever com seriedade, pesquisando muito antes de fazer qualquer afirmação e jamais as faço levianamente. Estudo, pesquiso, tabulo, comparo as fontes, afasto os absurdos, o que não é legítimo ou muito duvidoso, filtro, racionalizo e, por fim, concluo. Posso até concluir erradamente, mas esta é sempre a linha que procuro seguir. Assim, quando erro, erro na convicção de estar agindo certo; e para tentar evitar tropeços, vou usar sim, a linguagem que julgo mais apropriada, doa a quem doer.

Justificado o meu "desjuro", vou falar novamente do "mercado da fé" e, em especial, dos cruzeiros marítimos religiosos: os católicos já fizeram os seus, os evangélicos, idem e ambos, agora com o Edir Macedo, (o último a entrar no páreo), sinalizam que essa disputa de mercado será acirradíssima. Já foram realizados, dentre outros, o "Cruzeiro Evangélico Verão 2007", o "Cruzeiro Evangélico Diante do Trono", o "Cruzeiro Evangélico Louvor e Adoradores", o "Cruzeiro Católico Navegando com Nossa Senhora (I e II)" e o "Cruzeiro Gospel", este, do Edir Macedo, da IURD e o primeiro dentre os grandes neopentecostais brasileiros. Vamos aos fatos:

As muitas opções do "mercado da fé"

Hoje as igrejas cristãs, - para ficarmos só nestas e não falarmos do judaísmo, do islamismo, do hinduísmo, do budismo e outras em que tal procedimento não é o padrão (ainda) - se comportam como igrejas-empresas. Em linhas gerais, toda a sua estrutura e gestão são voltadas para angariar o maior número de fiéis e mantê-los como consumidores cativos da sua ampla linha de produtos (literatura religiosa, cursos de pastores, escolas, batizados, casamentos, produtos bentos, milagrosos, discos, shows, orações encomendadas, serviços, programas de rádios e televisões, excursões, turismo religioso, hotéis, pousadas, retiros, souvenir, etc). Para esse mister, utilizam maciçamente o marketing religioso, hoje bastante sofisticado e eficiente, reforçado pelas benesses políticas e legais que lhes dão o direito até de receber contribuições e utilizar-se da propaganda enganosa, sem qualquer regulação ou punição.

Igrejas proliferam e alastram-se como pragas, várias em cada bairro, já que possuem imunidade tributária e proteção constitucional, além de serem cortejadas por políticos, ávidos por votos. Outro fator que contribui para isso, é que o custo inicial de abertura e manutenção de uma igreja é baixíssímo (em torno de R$ 500,00, hoje), com pouca burocracia. No Brasil, se destacam os católicos (por enquanto, ainda maioria) e os evangélicos que, juntos, chegam a quase 80% da população religiosa do país. Como o crescimento dos evangélicos se tem revelado bem maior do que o dos católicos, é natural que haja uma concorrência proselitista entre essas igrejas (quem tem mais seguidores, tem mais lucro).

É aqui, pois, que começa a batalha em que os evangélicos têm levado vantagem, vendendo a sua falaciosa mas vitoriosa "teologia da prosperidade", que vem roubando um crescente número de fiéis da igreja católica. Não vamos entrar no mérito de como isso funciona porque foge ao escopo deste artigo e também porque já foi amplamente explanado em outras matérias, aqui mesmo neste blog e no site associado Irreligiosos.

Padres cantores, cantoras e bandas gospel, CDs gospel e cruzeiros religiosos estão em alta

O fato é que como decorrência dessa batalha as igrejas se tornam inventivas e tentam superar-se umas às outras. Procuram desenvolver "novos produtos de consumo" e atrair mais fiéis. Quando os evangélicos saíram na frente com os cantores e bandas gospel, a igreja católica contra-atacou com os padres cantores; quando os católicos saíram na frente com o turismo católico, os evangélicos contra-atacaram com o turismo gospel. Aí, mais precisamente em 2009, os católicos descobriram um novo filão, que já vinha sendo explorado pelos evangélicos, desde 2006, mas sem muita grandiosidade (não foi o Edir Macedo, nem Silas, Malafaia, nem R. R. Soares): o cruzeiro marítimo evangélico. De pronto, organizaram então o seu primeiro cruzeiro católico, o "Navegando com Nossa Senhora", que contou com a presença do Padre Fábio de Mello e foi um sucesso absoluto. Bem planejado e com forte apoio promocional , favorecidos pelo aumento do poder aquisitivo das pessoas e da expansão do crédito, tomaram novamente a dianteira nesse segmento


Anúncio institucional da Record Trips+CVC

Pois bem, já antes do primeiro cruzeiro católico, vaticinei (vide matérias anteriores, aqui e nos blogs associados): "Isto vai dar certo, virão os cruzeiros 2, 3, 4…,etc. e vai virar rotina, despertando a ganância dos evangélicos neopentecostais ,que logo, logo, lançarão também os seus cruzeiros." Na mosca! Não deu outra! Aconteceu exatamente como eu previra: os católicos fizeram com sucesso os cruzeiros 1 (2010), 2 (2011). Logo após o de 2010 e apenas 2 meses depois, o Edir Macedo fecha e realiza o seu primeiro cruzeiro gospel, (4 dias na costa brasileira Rio-Santos), enquanto os católicos já programavam o cruzeiro 2, com projeções para o 3. O apelo motivacional é sempre o mesmo, o "retiro espiritual ou adoração e encontro com Deus no mar". É para rir ou para chorar?

Ora se isso não é uma concorrência acirrada, tal qual existe entre as empresas, o que é? Comparem as campanhas de carro, as de cerveja, as de creme dental, as de shampoos… todos se dizem os melhores, mas se só um pode ser o melhor, alguém está mentindo. E se existe diferença nas técnicas de promoção e vendas é só no produto oferecido e no tipo de consumidores, porque o resto é tudo igual.

(p)Edir Ma(is)Cedo cria sua própria agência de viagens e sai na frente

Nessa corrida pós-católicos (cujos cruzeiros foram os mais bem-sucedidos), que o (p)Edir Ma(is)cedo ia sair na frente dos outros evangélicos eu já sabia: é o mais ganancioso, mais arrojado, mais cara-de-pau, mais empreendedor, mais ligeirinho, mais poderoso, mais esperto, possui o maior número de fiéis e é o mais rico dentre os concorrentes. Basta dizer que dentre suas empresas (rádio, emissoras de TV, gravadoras, etc), foi criada recentemente a "Record Trips" (Record Viagens), destinada a atender ao público evangélico (e outros também, porque ele não é tonto de ficar só com os evangélicos). Mas antes dos católicos, nem ele conseguiu ser o primeiro absoluto entre os evangélicos, tal é a ligeireza das disputas.

Resta saber agora quem será o próximo concorrente: Silas Malafaia (Assembleia de Deus) ou R.R. Soares (Internacional da Graça de Deus)? Aposto num desses dois, embora corram por fora Valdemiro Santiago (IMPD) e o casal Hernandes (Renascer em Cristo), além de David Miranda (Igreja Pentecostal "Deus É Amor").

Para o ano que vem, a briga vai ser boa e vão pipocar vários cruzeiros religiosos, em "suaves prestações mensais". Só faltava ter um também para os umbandistas, para fazerem "despachos em alto mar". Mas entre estes a grana é curta e ainda existe o preconceito, senão… A temporada está aberta. Escolha o seu ruzeiro!

Nunca vi previsões mais fáceis de acertar do que essas (só os evangélicos e católicos não vêem, porque não conseguem enxergar-se como consumidores, público-alvo de todo o marketing religioso). E para comprovar minhas assertivas (ah, se eu acertasse assim nas loterias!) …

Pesquisa de mercado confirmada: cruzeiros religiosos dão lucro, aprovam e indicam tendências

Eis o que escrevi, antes da realização do segundo cruzeiro católico:

"… Sim, eles já estão no segundo. E não tenham dúvidas: virão o terceiro, o quarto… e tantos quantos forem necessários, enquanto esses cruzeiros forem lucrativos."

"… A estratégia de marketing dos católicos destas vez deu um banho na dos evangélicos. Mas não se assustem porque logo, logo haverá também um "cruzeiro marítimo evangélico" que, certamente, fará mais barulho que o dos católicos nesse "segmento do mercado".
(matéria: "Mercado da Fé: II Cruzeiro Católico ‘Navegando com Nossa Senhora", in "Irreligiosos")

E aqui o que escrevi tão logo se anunciava o primeiro cruzeiro católico :

"… Não duvidem: quando o Edir Macedo e demais líderes religiosos evangélicos tomarem conhecimento do sucesso do evento e fizerem as contas, no próximo ano deverão pipocar cruzeiros evangélicos do tipo: "Navegando no Reino de Deus", "Navegando na Graça de Deus", "Navegando com Jesus", "Navegando com o Poder de Deus", "Navegantes do Senhor" e outras denominaçõe semelhantes.

E não se espantem se eles resolverem fazer uma vaquinha e comprarem ou locarem um transatlântico para uma temporada inteira, só para eles. Dinheiro não vai faltar, pois os fiéis estão aí mesmo para "ajudar".


(matéria: "Cruzeiro Marítimo Religioso: Mais um ‘Achado’ Lucrativo Para as Religiões… Padre Fábio de Mello Também Está Nessa", in "Irreligiosos")

E então, acertei direitinho ou não? Se considerarmos que em "denominações semelhantes" a expressão genérica cruzeiro gospel se enquadra, acertei tudo. Agora só falta vocês acertarem para o próximo ano ou, quem sabe, para a Páscoa. Talvez eles façam uma nesse período, pois é bem propício,embora fora da temporada oficial para o Brasil (novembro a março). Já existem outros "cruzeiros gospel" programados para o final deste ano e para 2012, em pacotes prontinhos das agências de viagens. É só saber qual igreja vai encampar, quais as atrações e se inscrever para pagar tudo parceladinho, bem baratinho. Aí você poderá fazer a sua "adoração em alto mar", cercado de conforto, luxo e diversões. Detalhe: a Igreja Universal até agora ainda não confirmou as datas do seu próximo cruzeiro. Portanto, se você não faz questão da denominação da igreja, pode escolher entre as que já confirmaram (3).

Embora não haja nada de desonesto em oferecer um pacote turístico e cobrar por ele, parece-me moralmente incorreto aproveitar-se da ingenuidade e credulidade dos cristãos para oferecer-lhes um produto caro que, mesmo com o pagamento facilitado, está acima das posses da maioria das pessoas que, no entanto, sugestionados pela propaganda e falsas motivações planejadas com cuidado (comunhão com deus, adoração em alto mar, limpeza espiritual, shows de música gospel, preces, confissões, congraçamentos com os iguais, missas, relaxamentos, comida saudável e toda aquela parafernália religiosa) , estimulam o consumismo religioso. De lembrar que o custo médio por pessoa gira em torno dos R$ 1.600,00, sem contar as taxas portuárias, traslados, compra de souvenirs e produtos religiosos, despesas extras não incluídas no pacote, etc., que elevam o custo individual em pelo menos mais mil reais.

Afora isso, considere-se que ninguém vai sozinho e leva, no mínimo, mais uma pessoa consigo (cônjuge, filho, parente ou amigo). Para apenas 4 dias de passeio, isso equivaleria a uma diária individual de R$ 650,00, para ficar em um hotel de alto luxo. Se perguntassem ao cristão se ele pagaria essa diária de hospedagem, certamente ele responderia que não, porque o preço é exagerado. Mas se for para se reconciliar com a sua fé e com Deus ele paga e acha barato. Afinal, ele está realizando um sonho de consumo (um cruzeiro marítimo em navio de altíssimo luxo), não pecaminoso, porque "abençoado por Deus".

Acho que agora até os religiosos serão forçados a admitir que existe mesmo um "mercado da fé", um mercado que movimenta mais de 1 bilhão de reais/mês e no qual eles estão inseridos como consumidores principais, sendo a igreja a isca que os atrai.. Será que depois disso os evangélicos param de me xingar e praguejar
(Veja, dois posts abaixo deste, a matéria sobre o 2º Cruzeiro Católico "Navegando com Nossa Senhora")

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